Sexologia Clínica


Os médicos não temem o sangue, por que temem o sexo?


A primeira idéia foi que eu falasse sobre um tema específico de sexologia. Tratamento de alguma disfunção, por exemplo, ou  talvez falar das últimas descobertas no campo da imaginologia neurológica aplicada a sexologia, dos aspectos do genoma ligados a sexualidade,       das terapias gênicas que já estão começando a aparecer no tratamento das disfunções sexuais, da nova farmacologia e  dos neurotransmissores governando ou interferindo no ciclo da resposta sexual humana.

No entanto, eu preferi trazer para os senhores e senhoras, sobretudo para médicos e estudantes de medicina, algumas reflexões, para pensarmos juntos. 

Depois de muitos anos de magistério toda vez que eu entro em uma Faculdade de Medicina tenho mais vontade de falar da arte do que da ciência médica. A ciência está nos livros, nas aulas dos professores e hoje até na internet. É fácil conhecer, o difícil da medicina é ser. O difícil não é o ter conhecimento médico, mas ser educado para ser médico. Esta é a arte da medicina.

Para esta conferência eu escolhi o tema:     

Os médicos não temem o sangue, por que temem o sexo?

 Esta pergunta é mais da arte médica do que da ciência médica, é mais da nossa ansiedade do que do nosso conhecimento. É mais da alma do que do corpo.

A maioria das Faculdades de hoje são casas do saber, casas de ensino, mas poucas, equilibram a ciência com a arte médica, o saber com a sabedoria.

Eu não vou falar aqui sobre a ciência sexológica, eu não vou falar para os ilustres profissionais aqui presentes. O que eu poderia dizer de novo que eles já não sabem? Eu vou falar para os alunos. E vou falar sobre a arte médica em geral e, naturalmente, a arte médica em sexologia.

Faz mais ou menos dois anos que um dos meus ex-alunos me procurou e me fez uma pergunta incomum:           

Professor o que eu devo fazer para ser um grande médico?

 Nos meus mais de quarenta anos de vida universitária foi a primeira vez que me perguntaram isso.

Entre o choque da pergunta e a minha resposta creio que se passaram um ou dois minutos, tempo suficiente para vasculhar a memória e encontrar uma resposta convincente.

Foi nesta fração de tempo que eu me vi bem jovem e me lembrei de um velho professor de clinica médica. Era um homem muito culto, um humanista, um médico no velho estilo francês, sorriso largo e gestos olímpicos, que conhecia filosofia, gostava de música clássica, discutia literatura mundial e ... era um grande médico.

Eu às vezes me cansava de vê-lo examinar os doentes de tão minuciosa  que era sua propedêutica.

Nunca me esqueci de uma vez que percorrendo junto com seus assistentes a enfermaria de clínica médica ele ia distribuindo a todos os enfermos um sorriso, uma palavra de carinho e de esperança. Ele era um médico e não só um técnico.

Mas para que vejam também o tipo de técnico que ele era, basta dizer que certa ocasião, na sua visita diária a enfermaria, ele  parou defronte da cama de um homem que acabou de ser internado e depois de ouvir a queixa principal do paciente, começou uma exaustiva anamnese a qual se seguiu, para mim, de um interminável exame de palpação e percussão abdominal.

Finalmente virou-se para todos nós e disse: este senhor tem giárdia e ele deve tomar a seguinte medicação. Ficamos todos perplexos. Giárdia? E o senhor não vai pedir um exame de fezes Professor? E ele respondeu, como sempre sorrindo, faça colega e se o resultado vier negativo o laboratório está errado. O exame foi feito e o diagnóstico laboratorial foi giárdia.

Naquele tempo o exame de laboratório era pedido para confirmar diagnóstico, era exame

complementar, nome que ainda hoje ostenta, mas que mudou de rumo porque passou a ser o farol do diagnóstico quase tornando o médico, ele próprio, complementar. Velhos tempos, velha medicina e ainda hoje se ouve dizer que a clínica é soberana. Deve ser a aspiração saudosista de algum medico do meu tempo

Já velhinho com todos os cabelos brancos ele chamava todos os alunos  de colegas, com uma humildade típica da sabedoria. Ele sempre dizia que duas coisas são fundamentais para ser um grande médico:  mise-en-scène e savoir –faire

Não sei por que me veio a cabeça estas duas expressões e eu então respondi para o jovem que me perguntou o que deveria fazer para ser um grande médico: ter mise-en-scène e savoir–faire.

E ao dizer isto parece que saindo das sombras do passado eu via o meu velho professor de clínica médica sorrindo. É isto aí mise-en-scène e savoir –faire.

Lembro-me que na época eu tive dificuldade de entender o que era mise-en-scène. Passado alguns anos  eu compreendi o verdadeiro significado da expressão.

“Mise-en-scène” vem da linguagem teatral, cinematográfica, que pode ser traduzido como sendo  o modo de se apresentar na cena ou encenação.

É como o médico chega ao paciente. O médico deve ter uma postura discreta e respeitosa diante do enfermo. 

Todo o corpo fala e o médico deve ter uma sobriedade no vestir, nos gestos, nas palavras. Tudo nele deve indicar esperança de vida e de saúde. Chegou o médico. O enfermo melhora  e piora quando ele vai embora. Isto é “mise-en-scène”. É a presença do médico como remédio.

Normalmente isto não se aprende na Faculdade de Medicina. Ela nos dá o conhecimento científico. Ensina-nos a técnica, mas não a arte. Porque a arte está na compreensão humana, na solidariedade.

O “mise-en-scène” se complementa com a relação médico/paciente, mas ela vem em primeiro lugar, antes de qualquer palavra, ela chega pela presença, pela sensação de tranqüilidade e de confiança que o médico transmite.          

Vivemos um momento histórico da desumanização crescente da medicina, e com a preocupação excessiva com a técnica vamos nos esquecendo da arte médica.

Com certa freqüência ouço alguém dizer “vou operar a vesícula do leito 19” . O paciente não tem nome, ele é apenas uma vesícula biliar enferma. Ninguém pergunta se este paciente tem filhos,

ninguém analisa mais seus temores, suas esperanças, suas incertezas.  O médico não pode proceder com a frieza do cientista puro, insensível as reações do paciente, ao seu substrato emocional e psicológico.

 O paciente não é um mero aglomerado de sintomas, sinais, perturbações funcionais, lesões orgânicas e desordens emocionais. Ele é um ser humano carente que necessita de conforto e de esperança.

Lembro-me aqui de Harrison quando escreveu que o verdadeiro médico não é só um perito no diagnóstico e no tratamento das enfermidades. O verdadeiro médico é mais do que isso. Ele deve ter algo de inspiração Shakespeariana, algo de louco, de sábio e de profundamente humilde. Algo de herói estóico e de charlatão. Ele lida com o povo.

Parece ser fácil entender o que é o Savoir faire.    

Claro que não basta a arte é preciso também a ciência.

Savoir faire é o conhecimento dos meios que permitem executar com sucesso uma tarefa.. É o “saber fazer”.

É lógico  que o médico deve ter o conhecimento da medicina para poder tratar seus pacientes. Se você tem o Mise-en-scène e o Savoir Faire você tem as chaves para ser um grande médico.        

Depois que o jovem médico foi embora eu fiquei com o sabor do incompleto.

Eu faltei dizer que além do Savoir faire e do Mise en scène, ele  deve ser um médico do seu tempo. Não somente aquele que acompanha e se atualiza com as ultimas descobertas da medicina, no campo da pesquisa, da farmacologia, do diagnóstico e da terapêutica.

Ele precisa também saber resolver as ansiedades e angústias de seus pacientes que vivem em uma determinada época. Os costumes mudam, as culturas mudam. A medicina tem de se adaptar as exigências e solicitações do seu tempo e não se manter fria e insensível a angustia de sua época. 

Eu me lembro que na década de 60 nos consultórios médicos não se falava sobre sexo. Havia uma conspiração de silêncio. As vezes tinham pacientes que apresentavam dores abdominais vagas, leucorreias inespecíficas, resistentes a todo o tratamento, uma série de sintomas psicossomáticos que não se sabia como resolver. 

Naquela época pedíamos aos deuses que estas pacientes não nos procurassem. Mas muitas, coitadas, insistiam em vir em busca de ajuda. A quem mais procurar a não ser o médico?.

Quando uma dessas pacientes estava agendada o que comumente diziam os médicos era: Ai meu Deus, lá vem aquela louca.

Loucos éramos nós que presos à ciência, insensíveis às modificações sociais não éramos capazes de entender as ansiedades da época.  Éramos médicos do passado incapazes de atender as pacientes do presente.

Na década de 70 e 80, depois dos trabalhos de Masters e Johnson, depois da chamada “revolução sexual” as mulheres começaram a falar de sexo no consultório. No começo diziam timidamente: meu casamento não vai bem, mas depois já diziam doutor ou doutora me arrumem uma pílula porque estou fria como um congelador e meu marido pode me deixar.

E que fazíamos nós os médicos? Nós não aprendemos nada disso na Faculdade de Medicina. Meu professor de anatomia pulou discretamente os genitais externos masculinos e femininos. Fisiologia sexual nem por sonho.

Pela vagina saia a menstruação e o feto, nada entrava. Admitiam-se as doenças sexualmente transmissíveis, cada uma pior que a outra, com gravuras coloridas que nos faziam temer a  atividade sexual.

Sexo era uma palavra tabu.


Freud dizia que as mulheres tinham inveja do pênis. Só se era em Viena porque, para não falar da Inglaterra da rainha Vitória, por estas bandas do Atlântico, na nossa cultura latino americana, a mulher era criada para ser uma indigente sexual.

O contragosto, o sexo nas mulheres era apenas admitido para ter filhos.

Naquele tempo havia 3 tipos de médicos:   o primeiro tipo era aquele que a paciente mal balbuciava  que tinha um problema sexual, ele logo se assustava e dizia  pode parar senhora, a senhora necessita de um sacerdote ou de um psicólogo e não de meus serviços. Este médico é o que eu chamo de veterinário de damas. Só entende dos males do corpo. Pode ter até um bom mise-en-scène, mas o savoir faire...

O segundo tipo de médico é o bondoso, o ouvido atento. o tranqüilizador. Até que a paciente sai confortada do consultório. Ele disse que a inapetência sexual vai passar depois de nascer o primeiro filho. E nasce o primeiro filho  e o problema sexual as vezes até piora. E ela volta ao médico e ele dá mais um outro prazo até que vencidos todos os prazos a paciente desiste e o bondoso continua feliz. Este médico é o que se chama de   inocente inútil.

O terceiro tipo é o doutor fugitivo.      A paciente chega, conta suas derrotas sexuais e ele pede um Papanicolau e o miserável do resultado vem classe 1 e a mulher pergunta e agora Dr?

Vamos fazer um exame de fezes. Fezes? Sim, o que a senhora está pensando precisamos investigar todos os aspectos de seu caso. E ele fica torcendo que venha uma ameba, uma lombriginha nem que seja uma só para justificar uma terapêutica contra o parasito.

Se o exame vem normal é um desalento. Pede-se um exame de colesterol, encaminha-se para o oftalmologista, até que a paciente se cansa e desiste.

Meus senhores é claro que estou fazendo uma caricatura porque tanto o veterinário de damas, como o bondoso e o fugitivo são exemplos de médicos do passado. E eu me pergunto baixinho: Médicos do passado...?

Se os senhores são ginecologistas ou urologistas os senhores e as senhoras poderão fazer uma histerectomia por via auditiva ou uma prostatectomia por via torácica, se não souberem resolver o problema sexual dos seus pacientes vocês serão aos olhos deles  médicos pela metade.               

Os médicos não temem o sangue, por que temem o sexo?

Em toda história da medicina sempre tratamos com sucesso das hemorragias. O sangue sempre foi associado a vida. Por que então os médicos temem tratar dos distúrbios do sexo,  se é pelo sexo que se forma a vida?

Sem dúvida são as causas culturais. O cristianismo durante os dois mil anos de existência fez questão de deixar claro que o sexo para reprodução era um mal necessário.  Sexo para o prazer nunca.

André Maurois comenta que é pelo prazer de saciar a sede ou a fome que se procura o alimento ou a água. O desejo e o prazer caminham juntos. É por se ter prazer sexual que se tem desejo. Ninguém procuraria o sexo se não houvesse a recompensa do orgasmo.  Da mesma maneira que Deus criou a sede e criou a fome, criou o desejo sexual e o orgasmo.

Mas a medicina sempre esteve muito ligada a religião e dela recebeu grande influência. Nunca o estudo do comportamento sexual humano, sobretudo os aspectos sociológicos e psicológicos do comportamento sexual, conseguiram  se separar da discussão da moralidade

Notem que não há nenhum problema em se falar sobre o Sexo amor. É assunto consensual, plenamente aprovado pela religião embora os médicos de modo geral considere o amor coisas de poetas e de crianças. A emoção amorosa é motivo de riso na classe médica, embora as outras emoções recebam atenção científica. Por que isso?

Parece que hoje não há problema de se falar de sexo como função reprodutiva, ainda que determinantes culturais, políticos e religiosos insistam em fixar regras do que se pode ou não se pode fazer no campo do planejamento familiar. Este é um problema de muita discussão e não estamos aqui para polemizar e sim para pensar.

Proibido, no entanto, parece ser a discussão do Sexo prazer. No campo da medicina do homem trata-se perfeitamente da disfunção erétil e da ejaculação precoce; no campo da medicina da mulher trata-se perfeitamente da dispareunia e do vaginismo sem maior problema. As coisas se complicam quando o assunto é o desejo sexual ou o orgasmo.

O desejo sexual e o orgasmo nunca tiveram para a medicina o mesmo grau de importância que tem as outras necessidades primárias.

Respeitável especialidade a dos obstetras que ajudam a sair do corpo feminino o concepto – produto da união sexual. Cuidar do produto é uma coisa muito respeitável. Como o produto foi feito é outra. Isto é sub-ciência.

Relações sexuais – sobretudo o desejo e o orgasmo - não têm merecido a atenção médica devida, embora todos gostem de praticá-las.  Sem elas não estaríamos aqui para contar a historia.  E por que tanta restrição a sexologia em nossa formação acadêmica?

Hoje estamos enfrentando na prática médica um fato absolutamente inusitado. Grande parte das consultas feitas ao clínico geral, aos ginecologistas, aos urologistas e aos psiquiatras é sobre problemas sexuais. E a Sexologia clínica praticamente não se estuda nas Faculdades. Por que isto?

Ainda que hoje a sexualidade esteja amplamente divulgada na televisão, na imprensa escrita, nas novelas e nos livros, onde grande parte dos jovens já está tendo vida sexual, nós médicos não estamos preparados para discutir sexualidade humana ou realizar tratamentos de Sexologia Clínica.

Cresce a pressão dos pacientes sobre os médicos e eles não têm a respostas certas para dar aos seus pacientes.

Faz pouco tempo, visitando um hospital universitário vi em um prontuário médico a seguinte pergunta: Você tem orgasmos?  Para que perguntam isso? Se a paciente diz que sim... que bom. E se ela disser que não tem orgasmo? Você sabe como tratar a anorgasmia? Se você não sabe como lidar com a resposta pelo menos seja prudente, não faça a pergunta.

O progresso da Sexologia clínica nas últimas décadas tem sido extraordinário, mas  curiosamente as Faculdades de Medicina, não a incluíram em seus currículos. A Psiquiatria, Urologia e Ginecologia tocam nos assuntos de uma maneira pontual e rápida de modo que os médicos se formam com escassos conhecimentos da sexualidade humana para atender uma demanda que exige soluções para seus problemas sexuais.

Há um temor desmedido e irracional que os pacientes nos falem de seus problemas eróticos.

Uma das características da medicina é aliviar o sofrimento, a dor, a ansiedade causada pela presencia de um problema. Mas há entre esta missão e o paciente uma barreira religiosa e cultural que favorece esconder o sexo no manto da vergonha e do proibido.

Os médicos não sabem lidar com estes problemas e por isso se esquecem de buscar a solução para a angustia silenciosa dos  seus pacientes.

Cria-se em torno da vida sexual uma barreira. Sexo passa a ser território proibido ou vedado. De um lado fica o profissional angustiado por sua incompetência e do outro a paciente desamparada.

Antigamente as pessoas se separavam por incompatibilidade de gênio, hoje por incompatibilidade de cama. São as disfunções sexuais, a falta de adequação dos casais que tem motivado as rupturas de muitos matrimônios.

Não devemos nos esquecer que a Sexologia Clínica não tem compromissos com pênis ou com vagina de ninguém, porque seu verdadeiro compromisso é com a felicidade das pessoas. Tratamos as disfunções ou tentamos revolver as inadequações na medida em que elas são obstáculos à felicidade das pessoas.

E devemos fazer isto preventivamente. E parece ser paradoxal que hoje  o discurso em quase todas as especialidades é a qualidade de vida, o bem-estar do paciente. Não é só tratar a enfermidade, mas promover a saúde. E onde está o lugar da saúde sexual? Já é tempo de parar um pouco e de pensar sobre nossa medicina.

No tempo de Hipócrates o ser humano era tratado como um todo: corpo e alma. Depois o ser humano foi fracionado e entregue a duas categorias distintas de profissionais: os médicos do corpo e os médicos da alma.    

A alma foi entregue aos sacerdotes que durante mais dos 1.000 anos da idade media tratavam os distúrbios psicológicos e psiquiátricos com conselhos, penitências, jejuns, orações, torturas, e exorcismos. A psiquiatria hoje totalmente depurada emergiu de uma das fases mais negra da história da medicina. Durante séculos e séculos o estudo das perturbações mentais ficou estagnado.

Os médicos do corpo tiveram mais sorte e tantas foram as descobertas que pouco a pouco foram se destacando as especialidades como necessidade de se aprofundar em certos aspectos do ser humano. O especialista é o profissional que estuda cada vez mais e mais o cada vez menos e menos.

A medida que as especialidades cresciam foram desaparecendo os clínicos gerais, aqueles que não eram especialistas de nada, mas tinha uma visão do conjunto.

Hoje se você vai ao cardiologista ele vê apenas um coração entrando no consultório. Se for ao dermatologista é sua pele que entra. Você pode ficar descascado na sala de espera. Se você vai ao ginecologista entra seu útero arrastando suas trompas e os seus ovários, se vai ao urologista entra seu pênis, seus testículos, sua próstata. No consultório do oftalmologista entram seus olhos. Somente os olhos. E ficamos cegos e desamparados na sala de espera com as nossas angustias, as nossas desesperanças, as nossas desilusões.

Falta alguém que reúna nossas partes e nos veja inteiros corpo e alma. Há alguma coisa errada em nossa medicina.

Com o passar dos séculos eu vejo que se esqueceram do sexo. As nossas Faculdades de Medicina nos ensinam um protótipo de ser humano apenas com sexo para reprodução, alias hoje cada vez mais desnecessário com as técnicas de fertilização in vitro.

Neste mundo  huxleiriano quase que se pode dizer: Se você quer ter filhos, para que se dar ao trabalho de ter relação sexual?.

Mas eu devo responder a pergunta:     Os médicos não temem o sangue. Por que temem o sexo?

Creio que somos todos profundamente vulneráveis às nossas pressões culturais, as nossas próprias incertezas.

Creio que de vez em quando deveríamos voltar um pouco para Grécia Antiga e observar como a sabedoria grega deu importância a sexualidade. Lá no Olimpo encontraremos Eros jogando suas fechas e a bela Afrodite saindo nua do mar.

Voltemos para nossas origens, lá estão as origens filosóficas de nossa civilização.   

Vamos nos encontrar com Sócrates, Platão, Aristóteles e conversar com Hipócrates. Eles vão ficar admirados com o que descobrimos sobre o ser humano sobre as nossas células, os nossos cromossomos, os nossos genes.

Mas eles terão pena de nós porque fomos perdendo através dos séculos a humanização da nossa medicina.   Escondemos gradualmente o sexo debaixo do tapete, no submundo da vergonha e da não ciência.

É necessário que sejamos capazes de entender e prevenir os descaminhos do sexo pela educação sexual que tem compromisso com o ser humano integral. 

É necessário que sem restrições, de qualquer espécie, sejamos capazes de tratar das dificuldades sexuais dos nossos pacientes. Não um tratamento simplesmente orgânico ou um tratamento simplesmente psicológico. Nós homens e mulheres somos seres inteiros: biopsicossocioculturais.

A vocês jovens alunos de medicina. Desta e de todas as Faculdades de Medicina cabe a vocês os destinos de nossa profissão.

Com Mise-en-scène e savoir faire os senhores conseguirão isto. Eu creio que hoje cabe a vocês reviver e re-humanizar a ciência médica. Para esta revolução certamente é necessário o entusiasmo da juventude de vocês porque talvez vocês tenham de repensar, reconstruir ou recriar uma nova medicina.

Afinal, minha geração passou ou está passando.